Uma resposta a Richard Dawkins

Uma resposta a Richard Dawkins

Nas redes sociais, ainda reverberam discussões sobre a polêmica declaração do biólogo evolucionista Richard Dawkins. Na semana passada, o cientista recomendou, em uma discussão no twitter, o aborto no caso de uma gravidez de uma criança com síndrome de Down. “Seria imoral trazê-la ao mundo se você tivesse uma escolha.”, sentenciou. Imediatamente surgiram diversas linhas de discussão sobre o tema.
Interessante ver como diferentes visões deram origem a linhas de pensamento também distintas. Me senti na obrigação moral de entrar nesta discussão também, já que sou biólogo, evolucionista e pai de um menino que tem Síndrome de Down.
Entendo, embora discorde, a perspectiva do Dawkins. Não me espanta sua opinião ainda que a lamente profundamente. Ela reflete o que pensam muitas pessoas — de médicos, geneticistas e cientistas a cidadãos comuns. E, não bastasse o peso científico das palavras de Dawkins, a extrapolação para uma filosofia de pouca reflexão arrasta os desavisados. Ele se utiliza de uma conceituação pretensamente moral sobre “…o desejo de aumentar a soma de felicidade e reduzir o sofrimento…”. Nesta perspectiva, ele acredita que ”a decisão de deliberadamente dar à luz o bebê com Down, quando você tem a chance de abortar no começo da gravidez, pode realmente ser imoral do ponto de vista do próprio bem estar da criança”.
Assim, pressupõe sofrimento para a criança em gestação e para os pais. Nada mais longe da realidade. Porém, é o que pode transparecer a quem não vive o cotidiano com qualquer pessoa com deficiência. O medo do desconhecido é um motivador evolutivo poderoso e faz repelir o diferente. Em especial para aqueles que estudaram ciências biológicas e medicina no século XX, a perspectiva de alterações cromossômicas é terrível. Lembro dos livros que desumanizavam por completo as pessoas com alguma alteração. Certamente uma decorrência de uma perspectiva Neo-Darwinista que beira o Darwinismo Social.
Não sou filósofo de formação, mas, até onde sei, moral e ética derivam de costumes socialmente aceitos. Mesmo assim, e talvez principalmente por isso,  não basta que o aborto seja considerado legal, como é nos EUA, para que a decisão de ter ou não um bebê com Down se torne apenas um dilema pessoal. Seria um dilema pessoal, se a sociedade como um todo não julgasse o nascimento de uma criança com Down uma desgraça. A postura de Dawkins reforça o imaginário coletivo no sentido de considerar o aborto algo natural quando há possibilidade do nascimento de um bebê com síndrome de Down. Afinal, segundo esta visão, a pessoa com Down apenas traria sofrimento para si e para sua família. É preciso desmistificar a opinião geral de sofrimento. E isso as diversas associações e coletivos de parentes, amigos e pessoas com síndrome de Down têm feito de forma brilhante.
Meu papel de pai me compele a mostrar e demonstrar que ter um filho com Down está longe de ser uma desgraça. Aliás, com nenhuma “deficiência” seria. É apenas um detalhe. Não se trata de um detalhe desprezível, mas é infinitamente menos importante do que ter um filho. Filhos são responsabilidades e preocupações para sempre. Tenham eles alguma condição de deficiência ou se tornem altos executivos ou cientistas brilhantes. As preocupações e orgulhos não são exatamente as mesmas, entretanto, estão lá, e na mesma intensidade.
Como disse um amigo, faltou a Dawkins algum estudo na área de humanas. E eu complemento: faltou também a experiência prática de convivência com alguém com Down. Não por ser nenhum tipo de experiência iluminadora, mas apenas por espantar fantasmas. E, hoje em dia, convenhamos, fantasmas não assustam mais ninguém.


* Carlos Figueiredo é biólogo, professor e pai do Rafael e da Joana. O texto, na íntegra, pode ser lido em 
http://carlosaugustofigueiredo.tumblr.com/post/95827636303/nesta-ultima-quinta-feira-o-eminente-biologo
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