Quem sou eu?

Quem sou eu?

Sou mãe de dois. E ser mãe é assim: a gente se preocupa com problemas reais, que estão acontecendo no momento com nossos filhos, mas também se preocupa com problemas futuros. Até mesmo com possibilidades de problemas futuros. Essa sou eu. Mãe, deveras preocupada e antecipadora de problemas.
Pois bem, estava eu antecipando problemas e preocupada, após conversa com a terapeuta de meu filho que está prestes a fazer nove anos e tem síndrome de Down. Conversávamos sobre os sinais de maturidade que ele vem apresentando e que começa a se dar conta de quando, ao interagir com alguém, perceber se é aceito ou não. Se estão rindo junto com ele ou se estão rindo dele. Se o tipo de convívio o valoriza ou o infantiliza. Maturidade e despertar onde o olhar da família e o dele próprio sobre quem ele é não são mais suficientes. É hora de ganhar o mundo e se reconhecer através dos olhos dos pares, através dos olhos dos outros.
E eu comecei a matutar e remoer pensamentos sobre como ele vai lidar com esta nova imagem construída dele mesmo. Se esta imagem fará jus à pessoa maravilhosa que é ou se o reduzirá a uma deficiência.
Eis que um acontecimento me puxa de volta para o agora. Tira-me da batalha com os problemas possíveis, ainda não reais, e me mostra de forma clara que imagem é esta que as pessoas de seu convívio têm dele.
Na turma de 3º ano da qual o Rafael faz parte, houve uma eleição para representante de turma. A princípio os meninos nem poderiam se candidatar já que lideravam o ranking de mau comportamento. Depois de muita reflexão da turma, os meninos foram liberados para participar. Ao Rafael foi perguntado se gostaria de se candidatar a representante de turma. Ao que ele respondeu com firmeza e convicção que sim. Imediatamente a turma se animou e formou torcida organizada comemorando a inciativa do meu rapazinho. O voto foi secreto. Cada criança depositou seu papelzinho na urna. Teve início a apuração dos votos. Rafael aos poucos liderou a disputa se colocando 10 votos à frente do candidato logo atrás dele numa turma de 20 alunos. A cada voto lido a turma gritava o nome dele e torcia. Ganhou em disparada. E não é que o danadinho ainda teve a generosidade de votar, não em si mesmo, mas em seu melhor amigo?!
Estou certa de que neste despertar para o olhar do outro sobre si, meu filho teve, neste dia, a certeza de que é respeitado e admirado do jeitinho que ele é. Tendo Down e enxergando muito pouco. Sendo ele mesmo.

Carla Codeço
carla@paratodos.site.com.br