Por que me importaria?

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Por que me importaria?

Não sou negra, então, como posso saber o que é preconceito?
Não sou negra, então, por que me importaria com milhares de negros que são violentamente mortos todos os dias?
Não sou índio, então, por que me importaria se querem diminuir a reserva onde mora? Choveu do outro lado da cidade, muitas casas desabaram, pessoas perderam tudo o que tinham, pessoas morreram, pessoas ficaram soterradas, mas, no meu bairro, não caiu uma gota de chuva qualquer… por que me importaria, se estou aqui em casa com a minha família – todos sequinhos?
Não moro na Rocinha, então, por que me importaria, se as pessoas têm medo de sair de suas casas e as crianças não podem ir às suas escolas?
Não sou homossexual, então, por que me importaria se um foi espancado até a morte?
Tenho plano de saúde particular, então, por que me importaria se não há leitos, remédios, médicos e até sabão para lavar as mãos antes de uma cirurgia? Se o aparelho de tirar radiografia quebrou, se não tem aparelho de ressonância?
Ah, um menino sírio morreu, mas a Síria é tão distante…
Um barco com refugiados naufragou perto da costa da Itália, mas isso aconteceu do outro lado do mundo…
Um colega do meu filho tem deficiência e não conseguiu fazer prova, porque a avaliação não estava adaptada. Ele foi o único da sala que não fez prova… Ele, também, não recebeu seu plano de desenvolvimento individual, que serve como norteador para os objetivos que deve alcançar de acordo com o o conteúdo programático das matérias daquele ano. Por que me importaria?
Ah, porque tudo o que é humano me importa… aprendi isso com um certo romano chamado Terêncio, que disse em sua obra Heaautontimorumenos: “Sou homem: nada do que é humano me é estranho”. (Flavia Parente)

Flavia Parente
flavia.parente@paratodos.net.br