Pensando fora da caixinha

Pensando fora da caixinha

Há momentos em que precisamos rasgar a teoria e até mesmo a segurança de nossa farta experiência — seja ela adquirida na maternidade, em sala de aula ou no consultório.
A seguir, um relato, de Mariana Rosa, nossa leitora e autora do blog “Diário da mãe da Alice”, que nos leva a refletir sobre a importância de rever nossas certezas e pensar fora da caixa.
“Ela se comunica?”
Por Mariana Rosa 
A cena se passou no consultório de um gastropediatra, que atendera Alice para avaliar se um refluxo poderia ser a causa da sua pneumonia de repetição.
O médico nos atendeu pontualmente. Tinha cabelos brancos, rugas no rosto e uma fala ligeiramente trêmula, o que parecia confirmar sua larga experiência — motivo de nos ter sido indicado. Começou a tomar nota das informações de minha filha desde a gestação até hoje. Num instante, a folha estava preenchida frente e verso, o que sugeria que Alice, em sua pouca idade, também possui grande experiência de vida. Ciente de seu quadro neurológico, ele procedeu uma série de perguntas com a finalidade de identificar os sintomas que pudessem denunciar um refluxo.
– Ela se comunica? – perguntou o médico.
– Sim!
– Ela fala alguma coisa? – continua, enquanto examina Alice.
– Não, não fala nada.
– Ela sorri?
– Também não, doutor.
Então, ele se volta para mim, incrédulo e atônito, e retruca enfaticamente:
– Ué, então, como ela se comunica?
Eu sorrio e respondo:
– Com o corpo todo, doutor.
– Ah…
Para explicar melhor, lembrei que, dias atrás, eu tentei dar iogurte natural batido com morango para a pequena e ela fez careta, cuspiu e, por fim, travou a boca, dando por encerrada a tentativa. Recordei-me também da sua alegria, batendo pernas e movimentando os braços, quando reconhece um objeto que chama a sua atenção. Falei ainda do choro, a plenos pulmões, quando precisou ser submetida a uma gasometria. Eu teria um sem número de situações para narrar ao experiente médico sobre como se dá a comunicação de minha filha. Mas, no terceiro ou quarto exemplos, ele já se deu por satisfeito e, arrisco, surpreendido.

Saí tranquila e duplamente feliz do consultório: minha filha se beneficiou do conhecimento do médico, acumulado em anos de estudo e prática, e o médico arejou e renovou seus conceitos pela vitalidade do primeiro ano de vida de minha filha.
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