O que você tem a ver com isso?

O que você tem a ver com isso?

O blog tem nos rendido por aí alguns elogios. E-mails de amigos ou desconhecidos encantados com o projeto. Gente feliz de poder participar. E, tapinhas nas costas e beijinhos no rosto, de parabéns. Mas me chamou atenção a reação de uma conhecida – que me autorizou, desde que sem revelar o seu nome, a contar essa história aqui.
Essa conhecida veio elogiar o blog. Veio dizer que está adorando falar mais de inclusão. E que acha “linda” toda essa discussão sobre um tema tão relevante para nossa sociedade. “Não podemos parar de pensar nas crianças. Eles são uma graça”, emenda. No entanto,  ela me vem com a seguinte pergunta:
– Mas, querida, o que você tem a ver com isso? Vítor está ótimo, é um fofo, está lá com os oclinhos dele, vivendo a vida. O que você tem a ver com isso? Esse negócio de inclusão não é pra quem tem questões mais sérias?
Confesso que tomei um susto. Parei, atônita. Fiquei sem palavras, como muitos sabem que reajo quando estou nervosa. Mas respirei fundo:
– Eu tenho tudo a ver com isso. Todos temos tudo a ver com isso. Inclusão é para todos. Existem algumas coisas que são visíveis; outras, não. Existem personalidades distintas, habilidades diversas. A inclusão é dar acesso a todas  elas, sejam míopes, estrábicos, obesos, magrelos, diabéticos, alérgicos, autistas, gagos, brancos, normais…
– Como assim??
– Veja o exemplo que eu tenho em casa. O Pedro é, como dizem por aí, normal. Mas ele tem um defeito, digamos assim: ele tem alergia. Já precisei que, na escola, dessem banho nele e passassem um creme após atividades num parquinho. Uma professora, há um tempo, percebeu sua reação ao giz e mudou seu lugar em sala, para distante do quadro,  e passou a carregar, para ele, um gel antisséptico na sua bolsa. Só para ele. Isso é inclusão. É olhar a necessidade do outro.
–  Ah, isso foi um gesto da professora. Mas ela não precisou fazer muita coisa. Imagina tem criança que precisa de mediadora, que precisa que mude o material, que atrapalha, que precisa de tanta coisa, A escola tem que fazer, claro. Se não, tadinho, dá uma peninha, eles sofrem… E o Vítor nem atrapalha ninguém…
– A inclusão forma seres humanos melhores, cidadãos de verdade. E não gente egoísta que só pensa no próprio umbigo. Vítor realmente não atrapalha, mas, até que ponto isso é bom? Espero que ele fale, grite, esperneie se não estiver enxergando. Mas tem criança que reage se isolando, não se desenvolvendo completamente ou sofrendo bullying. Outra coisa é que, sim, eu preciso reconhecer as limitações do meu filho e ensiná-lo a ser independente e a ver o que dá e o que não dá. E daí correr atrás. Não estou entrando nessa apenas pelo Vítor: tenho dois filhos, lembre-se…
-Ah, sei não, na escola dos meus filhos, eu não vejo muitos casos assim, não. Não sei como é. Eu continuo achando que você não tem nada a ver com isso. Eu acho que isso é pra outras pessoas, outros tipos de crianças. Não me entenda mal. Eu acho bacana, acho mesmo essa coisa de inclusão. Acho bonito mesmo.
Não sou especialista em inclusão. Ainda estou engatinhando no tema, mas acho que sei o básico: o mundo é de todos. O que significa, basicamente, respeitar a diversidade, não rotular as pessoas, olhar e enxergar o outro e adaptar o que quer que seja para que ninguém fique pra trás. Seja ele como for. Mas, para isso, é preciso urgentemente mudar a mentalidade das pessoas. Tirar o “eles” e pensar em “nós”. Fazer com que pensem fora da casinha, saiam do seu quadrado e sejam, de verdade, seres humanos.
Mas e você? O que você tem a ver com isso?

Fabiana Ribeiro
fabiana.ribeiro@paratodos.net.br