No mundo de fanta

Desenho onde vaca de cabeça para baixo provoca uma vaca que está na grama: "Define 'normal'."

No mundo de fanta

Repare a seu redor. Você somente tem normais por perto? Seus amigos, filhos e irmãos, seriam eles todos normais? Aliás, o que é ser normal? É um sinônimo para a maioria? É um padrão estabelecido, seguido e almejado por muitos? Enfim, essa normatização me intriga e sinceramente não sei se me enquadro nela. 
Se alguém apontasse para você, o que destacaria? Seu cabelo escorrido? Sua roupa listrada? Ou seja: você pode ser aquele que anda mancando, aquela que se veste de forma engraçada, um jovem negro, a criança na cadeira de rodas, aquela loira gostosa. Enfim, as características físicas são, feliz ou infelizmente, nossas marcas mais visíveis. Mas elas não podem – ou não deveriam – resumir quem somos. Sou mais, bem mais, do que os quilinhos a mais que carrego, meu cabelo alisado ou minhas unhas roídas.
É essa diversidade, tão complexa e infinita, que querem tirar de sala de aula, caso haja um retrocesso na educação inclusiva. Seria um mundo “normal”, com pessoas “normais”, vivendo suas vidas “normais”. Seria a construção do maravilhoso mundo de fanta: sem gagos, sem mancos, sem autistas, sem cegos, sem surdos, sem mudos, sem cadeirantes, sem anões, sem vesgos. Sem realidade, sem tolerância e com muito preconceito. E quando as doces crianças normais entrassem em contato com as perigosas crianças anormais, isoladas em guetos das escolas especiais, teriam um inevitável choque de realidade. Olhariam os seres estranhos com aquela cara de espanto ou temeriam que alguma deficiência pudesse ser contagiosa.
“Mas elas não acompanham tudo”, dizem. E todos os ‘normais’ acompanham? Fico feliz de saber que os normais não tomam bomba em matemática, nem colam na prova de física. “Imagine se uma criança ficar babando em sala. Isso vai atrapalhar o rendimento da minha filhinha”. Vai? Eu não sabia que a capacidade de estudar era desproporcional à produção de baba da criança com paralisia cerebral no canto da sala. Estudos apontam justamente o contrário: turmas que dividem a sala com crianças com questões têm rendimento escolar superior ao das crianças que não se misturam com essa diversidade. Tirar as crianças com defeitos da vista dos filhos. Para evitar constrangimentos de encarar o diferente e a vergonha de não poder assumir a total inabilidade para incluir o outro.  Isso é o que muitos pensam quando não querem que seus filhos normais dividam as salas com a tropa dos anormais.
Só que o mundo só dos normais é fake, de mentirinha. Porque essa normalidade, essa uniformização do ser humano, essa pessoa normal não existe. Somos únicos, com nossas particularidades, defeitos e habilidades. Somos indivíduos. Com sonhos, desejos, expectativas – e direitos. E juntos formamos a diversidade da humanidade.
A escola precisa ser um reflexo da sociedade. E, assim, preparar seu filho para o mundo real. O Brasil tem quase 15% de pessoas com alguma deficiência e essa estatística precisa aparecer na escola. Crianças com autismo não mordem, os pequenos com deficiência visual não são santos e aqueles com deficiência auditiva podem fazer um barulho e tanto. Todos precisam estar na escola, aprendendo juntos. Vamos abrir a cortina do mundo, deixar que entre qualquer um, sem qualquer distinção, e vamos ver que seu lindo filhinho vai aprender muito com o garotinho que só lê em braile, mas conseguiu definir as cores do arco íris. Deixe o mundo entrar na escola e surpreenda-se quando o seu filho, aquele normalzinho que você tanto ama, ajudar aquele mais baixinho da escola a se sentar no banco do laboratório de química porque a escola ainda não tem um banquinho que o permita subir e sentar com autonomia. Ou ver que a turma se cala diante do discurso do menino com síndrome de Down que você jurava que sequer seria alfabetizado.
Abro um parênteses para falar dessa definição de normal dada às crianças. Da mesma forma que nós, adultos, estipulamos que meninos usam azul e meninas, o rosa. É muito difícil explicar que uma lei pode mudar o destino de várias crianças da escola. Não apenas pela questão burocrática da legislação, mas também porque é difícil compreender absurdos. E fechar as portas de uma escola para uma criança porque ela não é ‘normal” (alguém me explica o que é isso??) é um absurdo que meu Pedro, de 7 anos, não compreende.
– Mãe, isso não seria justo com a Lelê (da sala, com Síndrome de Down). E eu gosto muito dela. Eu, Erik, Tiago… Essa nova regra não é justa!!!
– Também acho. Se a regra mudar, a escola decide se pode atender ou não a uma criança com alguma questão. Como também no caso do seu irmão. Imagina se ele tem que sair da escola porque não está enxergando tão bem quanto as outras crianças? Imagina se for preciso colocar o seu irmão numa escola especial?!
– Mãe, seria horrível.
– Mãe, e eu?
– O que tem você?
– Vão querer me tirar da escola também? Por causa da minha coceira?
– Não, você não…
– Já sei: meu defeito é invisível.
– É, é invisível.
– Eles não sabem de nada mesmo.
Defeitos invisíveis estão livres de qualquer retirada da sala de aula. Não são expulsos da escola crianças que fazem bullying. Também podem permanecer na escola aquela que desrespeita o professor ou xinga o colega por causa da cor da pele ou de sua condição social. Caráter ainda está à prova de lei. Que vença, ao menos dessa vez, a minoria.

Fabiana Ribeiro
fabiana.ribeiro@paratodos.net.br