Ninguém conhece a sua dor

Desenho de uma mulher chorando

Ninguém conhece a sua dor

Ninguém conhece a sua dor. Ela preferia um braço quebrado, um dente cariado, uma pedra no rim. Mas a dor que ela sente é lancinante. É angústia, impotência, tristeza – tudo junto num embrulho na alma. É dor de filho. Conhece? É a pior dor do mundo.

Viver é ter de lidar com essa dor de vez em quando. Uns mais; outros menos. Mas ela está no clube dos mais. É difícil ser diferente quando o mundo exige que você seja igual, que você seja mais um. Ele, seu menino, não consegue ser mais um, ainda que se esforce todos os dias. Ele não é mais um.
Então, ela cria planos mirabolantes para ele e escolhe as suas batalhas. Inventa estratégias pra que que ninguém mande seu filho para universos paralelos. De todos os universos paralelos, é o da escola que lhe dá mais arrepios. Podem ser assustadoras as decisões de gabinete.

Todos os dias, ele promete que será diferente. Tem dias que consegue. Noutros, não. E ela é a Samu da escola. Que quando liga, ela o leva em sua ambulância. E, no caminho pra casa, engole a tristeza de que, por mais um dia, ele não deu conta. Ou que não deram conta dele. Nunca se sabe.

Chega a noite e ela chora. Chora de raiva. Chora de medo. Chora de solidão. Chora escondido dele. Não há abraços que a consolem, nem palavras que a confortem. Chora só, porque só está. Está só com ele.

Sozinha, ela fica com ele. É nele que está a sua força. É nela que está a força dele. Porque o mundo, bem, o mundo pode ser um lugar inóspito pra muita gente, mesmo você sendo apenas um menino.

E ela volta aos planos, aos médicos, aos milagres. Pra poder ter esperança de que amanhã será melhor do que hoje. E, em geral, é. Vai seguindo, com nós na garganta e olhos inchados. Mas vai seguindo. Ela não desiste, pra que ele não desista.
Não, não mesmo. Ninguém conhece a sua dor.

Fabiana Ribeiro
fabiana.ribeiro@paratodos.net.br