Eu pertenço, tu pertences, ele pertence e nós pertencemos

Eu pertenço, tu pertences, ele pertence e nós pertencemos

Quando meu filho nasceu e fui comunicada de seu diagnóstico, tive vários medos. Muitos pensamentos me passaram pela cabeça e quase a totalidade deles, com o passar do tempo, foi perdendo a razão de ser. A maioria, no primeiro mês, já caiu por terra. Eram apenas pensamentos, ansiedades que nasceram de desconhecimento e preconceitos que eu tinha e nem me dava conta. Mas um deles se mostrou real. Este tinha razão de ser. E persiste até hoje.
O sentimento que tive foi de abandono. De uma hora pra outra, eu não me sentia mais parte do coletivo. Não pertencia mais. Não falo de pertencimento ao núcleo familiar, mas sim da comunidade mais ampla. Da sociedade de que eu e minha família fazíamos parte até então.
Mas de onde surgiu este medo? Da observação de que, de uma hora pra outra, a equipe médica, até então preparada e bem formada e assessorada, após o nascimento do meu filho se mostrou insegura e incapaz de lidar com o diagnóstico. Os médicos que servem pra todos passaram a não servir mais pra nós. Neste momento tive a certeza de que não estava mais “protegida pelo coletivo”, como um gnu que se protege no meio da sua manada.
Conforme os anos se passaram, pude vivenciar outras situações como esta, de exclusão. Matrícula negada em escola em função da deficiência; contratação compulsória de mediadora a fim de garantir a matrícula; soube até mesmo de parques de diversão que impedem o acesso de pessoas com deficiência. O que acontece? Não somos mais bem vindos nos serviços de nosso bairro? Não pertencemos mais à nossa comunidade?
Estas situações deixam claro pra mim que a dificuldade não está na deficiência em si. E sim no preconceito que está presente em cada pedacinho da nossa comunidade. Se há a rampa, não há problema em precisar de uma cadeira de rodas para se deslocar. Se há respeito e confiança, não será a deficiência intelectual que impedirá alguém de viver em plenitude.
É urgente mudar isso. É urgente construir um mundo onde todos façam parte. E a construção de um mundo melhor começa agora. Na nossa casa, na escola, na família, em cada gesto de cada um de nós. Mãos à obra!

Carla Codeço
carla@paratodos.site.com.br