Eu fiz a minha escolha, e você?

Eu fiz a minha escolha, e você?

Pois é, a vida tem dessas coisas: quando achamos que estamos no controle de tudo, é exatamente quando somos chamados a relembrar que não. Que o pouco controle que temos é ilusório. Vivemos como que numa montanha russa. Não sabemos se no próximo instante nos espera uma guinada ou uma queda súbita. Puro sabor de aventura. Afinal, que graça teria viver, se tudo fosse programado e já soubéssemos de antemão o que está por vir?
Vivendo intensamente constatei que estou grávida. Mais um presente para dar ainda mais sabor à vida. Uma nova gestação num momento de vida em que vinha me dedicando muito aos outros e tão pouco a mim mesma. Priorizando os filhos, o marido, o trabalho, escrever, os grupos de discussão sobre síndrome de Down. Recebi o impacto da iminente mudança brusca. Parada obrigatória. Parada para me concentrar em mim mesma.
E mergulhei com tudo nesta nova aventura. Quando começo a vivenciar a nova experiência, algumas interações com outras pessoas me chamam atenção. Comentários ressaltando a minha co-ra-gem. Mas, hein, que coragem? Cheguei a ouvir numa conversa a referência à fulana que teve seu primeiro filho com Down e, mesmo assim, teve a coragem de ter mais um. “Corajosa ela, né?” Confesso que demorei a entender. Depois da breve explicação, fiquei com a pulga atrás da orelha, pensando, pensando… Então, sou corajosa por estar grávida, apesar, friso, apesar de já ser mãe de uma criança com deficiência. É essa a definição para muitas pessoas de mãe-coragem.
Porém, seria coragem mesmo? Fez-me pensar nessa ilusão do controle absoluto novamente. Afinal, filho é filho. A gente não escolhe. Ou melhor: não deveria escolher. Há os que explicam: “Mas ela está arriscando. E se nascer outro filho com deficiência? É corajosa por se arriscar a ter dois problemas!” Hã? Problema?! Mas, pense bem, se você tem um filho e ele, em consequência de algum acidente ou sequela de alguma doença, passa a ter alguma deficiência? Ele passa a ser menos filho? Deixa de ser SEU filho? Definitivamente, filho não é problema, tenha ou não tenha alguma deficiência.
Disso tudo, eu tiro uma coisa: sou corajosa. Não por ter mais um filho. Mas por lutar pelos direitos de cada um deles. Por enfrentar os preconceitos de um mundo de tantos iguais. Por não aceitar nenhuma forma de exclusão. Por não acatar estereótipos, estigmas, limites a nenhum deles. Por acreditar no potencial de cada um. Por simplesmente amar cada um dos meus filhos do jeito que são, a despeito do universo a meu redor.
É ilusão achar que temos tudo sobre controle. Pra não dizer que não temos como escolher nada, temos uma escolha a fazer. Escolher viver plenamente ou viver remoendo problemas criados por nós mesmos. Esta escolha, sim, é nossa. Viver é isso: aceitar os desafios e mergulhar de cabeça ou ficar remoendo como poderia ter sido, se nada disso tivesse acontecido a você. Eu fiz a minha. E, se achar que isso é sinal de coragem, tudo bem, meu bem.

Carla Codeço
carla@paratodos.site.com.br