E se fosse o seu filho?

Um olhar diferenciado para o autismo.

E se fosse o seu filho?

Saí do Metrô na estação Saens Peña por volta das 20h e a confusão estava formada. Um rapaz de uns 20 anos havia quebrado a única máquina de autoatendimento do Riocard com um soco e as pessoas da fila, cerca de 15, estavam prestes a linchá-lo, acusando-o de vandalismo. Um homem gritou: “Você só sai daqui preso! Estou indo buscar um policial!”. A mão do rapaz tinha pequenos cortes que sangravam. Ele tentava se explicar, mas ninguém o ouvia. Nem eu, por causa da gritaria. Mas algo nele me chamou a atenção. Parecia uma criança acuada.

“Você está indo para onde?”, perguntei em meio aos xingamentos. “Para a minha casa. Na Pavuna”. Meu plano de acompanhá-lo até sua casa era inconcebível, não dava para ir àquela hora para um lugar que eu não conhecia. Os seguranças do Metrô chegaram e o tiraram do meio daquela gente enfurecida. Resolvi tentar conversar com as pessoas.

“Pessoal, eu não conheço esse rapaz, mas percebo que ele tem alguma dificuldade, talvez um transtorno psicológico ou uma deficiência intelectual. Ele não fez por mal, tentem ficar calmos”. Ok, foi um diagnóstico feito em 5 minutos por uma jornalista metida a médica e as chances de eu estar errada eram de 99%. Mas, como mãe de um menino autista, acabei me tornando próxima de crianças e jovens com diferentes transtornos, e essa foi a minha intuição. Ouvi de volta de uma mulher:
“Se ele tivesse algum problema assim, estaria andando sozinho por aí?”.

Fiquei pensando na mãe desse rapaz, que decidiu que ele precisava ter independência – afinal, ela não vai viver para sempre -, mas certamente todos os dias fica aflita esperando-o chegar e rezando para que tenha dado tudo certo. Sim, ele poderia perfeitamente estar andando sozinho por aí, se as pessoas fossem mais empáticas.

Então, me dei conta de que um segurança havia levado o rapaz para dentro de uma cabine, enquanto o outro tentava acalmar os ânimos do povaréu. Corri apavorada para a cabine e bati na porta. O segurança saiu para falar comigo, o rapaz ficou lá dentro.

“Senhor, por favor, ele não é um vândalo. Que vândalo se machucaria para destruir algo? Ele teve um descontrole, talvez porque não conseguiu usar a máquina, tenho a impressão de que ele tem algum transtorno psicológico”, eu disse, quase implorando, e me preparando para fazer um discurso de que a deficiência nem sempre está na cara.

“Sim, senhora, eu também percebi logo. Estou tentando entrar em contato com a mãe dele para pedir para alguém vir buscá-lo. Fique tranquila, não vou deixar ninguém machucá-lo”, ele respondeu. Comecei a chorar na frente daquele segurança, agradeci por sua sensibilidade e fui embora.
Entendo que aqueles homens e mulheres eram trabalhadores, cansados após mais um dia de labuta, e que tenham ficado revoltados por terem suas expectativas de ir para casa o mais rápido possível frustradas. Talvez se eu não tivesse um filho com deficiência, não teria esse olhar… Mas será que faria parte daquela onda de intolerância? Não sei, mas eu peço: tentem sempre fazer um exercício de empatia, gente. É fácil, é só pensar assim: “E se fosse o meu filho?”.


Por Luciana Calaza
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