Derrota ou vitória

Derrota ou vitória

Foi um vexame. A pior derrota nos últimos 100 anos. A maior goleada da história numa semifinal. O maior mico da Copa. Viramos piada do mundo todo. Mas, apesar do desempenho pífio dos jogadores, ainda vale uma discussão sobre ganhar e perder.

Ao sair da casa do meu irmão, meus filhos questionavam muito sobre o que havia acontecido. Estavam tristes, queriam que fossemos campeões. Parei, então, para pensar sobre que cultura é esta onde só servem os campeões. Onde apenas o primeiro lugar é aplaudido. Por que temos que ser sempre perfeitos? Parece até que não há prazer no jogo, mas sim na vitória.

E se o placar fosse diferente? E se perdêssemos de 3 a 1? Haveria a mesma revolta? Estou certa de que sim. Bastava o Brasil perder para xingar toda a árvore genealógica do Felipão. Ou queimar a bandeira. Ou jurar nunca mais torcer. Ou gritar aos quatro cantos que o brasileiro é um povinho de quinta.Enquanto o jogo rolava, eu, que não gosto de futebol, fiquei entretendo as crianças pequenas. Uma das brincadeiras foi o famoso “Jogo do Mico”. Porém, as crianças eram muito pequenas e, por isso, adaptei o jogo para que fizéssemos apenas os pares. Me chamou atenção um dos pequenos. Ele só perguntava uma coisa a cada jogada: “Ganhei?”. Ele nem sequer se preocupava em procurar os pares ou entender o que estava acontecendo. Só queria ganhar. Provavelmente, ser o campeão. E hoje, pensei, tão pequeno e já tão envolvido pela cultura da vitória, do primeiro lugar, do campeão.

Não estou querendo dizer que não devemos ensinar nossos filhos a querer ganhar ou que não devemos ter jogos competitivos. Apenas gostaria de reforçar que não é somente o primeiro lugar que serve. No fim do semestre passado, meus três filhos participaram dos jogos da Copa na escola. E todos os três ficaram muito tristes porque não haviam ficado em primeiro lugar. Isto já havia chamado a minha atenção.
Acho que precisamos rever isto. É hora de pensarmos onde chegaremos agindo assim. A hora é de ensinarmos outra lição.
Precisamos mostrar a nossas crianças que dinheiro não ganha jogo. Nem sorte. Nem reza forte. Nem tinta no cabelo. Mas talento com treino. Esforço. Empenho. Disciplina. Mas que, mesmo assim, podemos perder. E precisamos sempre estar preparados para isso. Mas, nunca, nunca, nunca, jamais mesmo, devemos deixar de torcer. Porque ganhar ou perder dependem do que acontece em campo. E deixar de torcer é abandonar o barco.
Que tal aproveitarmos o momento e, neste sábado, torcermos para os nossos jogadores? Afinal, eles serão o terceiro ou o quarto melhor time do mundo. Isto não é pouco: é muita coisa.
Ainda que o tamanho da derrota tenha sido humilhante, não precisamos ser campeões sempre, não precisamos ser perfeitos. Temos que olhar para cada um e ver aonde cada um pode chegar. Nossa seleção pode chegar até o terceiro ou o quarto lugar. Que bom! Parabéns!
Ciça Melo
cica.melo@paratodos.net.br