De volta ao ponto de partida

De volta ao ponto de partida

Eis que o Ministério da Educação cria o Programa de Implantação de Salas de Recursos Multifuncionais. Com o objetivo de tornar viável a tão sofrida educação inclusiva. Botar pra frente, fazer funcionar a bendita. São espaços equipados com materiais didáticos e pedagógicos, recursos de acessibilidade e capitaneados por professor com formação em educação especial.As salas de recursos foram criadas com o objetivo de complementar, nunca de substituir o tempo que a criança passa em sala de aula.
Eis que algumas escolas começam a distorcer o objetivo e usar estes espaços como substitutivos às salas de aula, fazendo com que o aluno saia de sala, se destaque da turma para ter um atendimento exclusivo na sala de recursos, durante o turno de aula. A argumentação é que neste espaço o tempo que passa na escola será mais produtivo, enquanto que na sala de aula comum ele não terá condições de aprender. Ora, ele não terá condições de aprender, se as adaptações necessárias para que o conhecimento seja acessível não forem feitas. Se o planejamento de aula não considerar este aluno como parte do grupo. Com esta prática, o aluno com deficiência ou dificuldade de aprendizagem se distancia ainda mais do grupo. Ele, mesmo incluído em sala, já costuma ser afastado pela presença de uma pessoa que media o aprendizado e também as relações sociais entre alunos e aluno-professor. Quanto mais tempo o aluno passa fora de sala, menos se familiariza com os assuntos tratados na aula. Mais difícil fica, portanto, a tarefa de incluí-lo.
Não quero dizer com isso que os mediadores não sejam necessários, também não nego a importância de a escola ter espaços alternativos para que um aluno com questões sensoriais possa se estabilizar. O que são temerosas são estas práticas generalistas que tratam todos os alunos com deficiência como um grupo que precise dos mesmos recursos pedagógicos e adaptações, da mesma forma com que tratam todos os alunos típicos como um grande grupo homogêneo que aprende da mesma forma.
Mas o que acontece?! O que há de errado? A proposta de sala de recursos não funciona? Porque os professores insistem em criar subgrupos segregados? Com a regularidade e a frequência de criação destes subgrupos e locais alternativos dentro da escola, a tendência é que fique cada vez mais difícil para a própria escola gerir tantas exceções. Corremos o sério risco de voltar do ponto onde saímos. Quando ficar patente a inviabilidade da gestão de tantos mediadores, subgrupos e salas reservadas, a tendência será a de juntar estes alunos e mediadores em uma sala única. Salas de recursos se metamorfoseando em salas especiais, salas para os alunos com deficiência, partindo de uma escola inclusiva para uma escola segregadora e até “especial”. Ora, mas não era essa página que nós queríamos virar de uma vez por todas?

Carla Codeço
carla@paratodos.site.com.br