À deriva

À deriva

Não podemos achar natural encontrar o corpo de uma criança morta na praia. Como se fosse um peixe morto ou uma garrafa descartada. Crianças não são peixes, não são garrafas. Independentemente de cor, sexo, raça, deficiência, são crianças. Precisam de casa, de escola e, acima de tudo, de aceitação!
Vi no Facebook de uma moça judia “sabemos que só o refúgio em novas terras nos salvou, e sabemos também de muitos que foram barrados e não puderam se salvar. Não temos o direito de ficar indiferentes, de ignorar. Refugiados não são imigrantes ilegais, refugiados precisam de ajuda! A indiferença é um crime.”
É óbvio que aqueles que viveram de perto algo parecido são mais sensíveis. Mas será que precisamos passar pela experiência para nos indignar? Devemos todos nos revoltar. Não podemos aceitar isto simplesmente como uma realidade. Como algo que não nos diz respeito. Temos questões econômicas e sociais para resolver? Sim, muitas. Entretanto, antes de tudo, temos questões humanas. Precisamos no mínimo nos indignar. Uma mudança de comportamento começa pela indignação, pelo inconformismo. Nem que seja pararmos para uma reflexão. Por que tememos o desconhecido? Por que não aceitamos aquele que não conhecemos? Por que disputamos? Por que acumulamos? Por que é tão difícil dividir? Darmos espaço aos outros, acolhermos os outros, aceitarmos os outros.
A foto é definitivamente forte, angustiante e aflitiva. Pensei em não olhar, pensei em ignorá-la e, quem sabe assim, eu conseguiria esquecer que isto existe. Depois, pensei em ampliar a foto, imprimir, colar em todas as paredes. Para que todos os dias, eu me lembrasse. Me lembrasse de que não podemos ficar alheios ao que acontece ao nosso lado. Alheio aos que são diferentes, alheio aos que me afligem, alheio aos que me cercam.
Talvez a Síria esteja longe. Mas temos tantos diferentes por aqui. Tantos que precisam ser aceitos, tantos que estão jogados nas praias da vida. Podemos nos indignar, podemos aceitar as diferenças que estão mais perto. Quem sabe esta onda chega em outras praias. Encaremos esta foto de frente, com a tristeza, o respeito e a indignação que merece. E ajamos. Para, quem sabe um dia, não olhar pra ela nunca mais. Não por ignorá-la, mas por que ela não existirá mais.
Ciça Melo
cica.melo@paratodos.net.br